A conversa começou depois da refeição, quando o pão já havia sido retirado, mas ninguém ainda se levantara da mesa.
Os homens ali presentes haviam prosperado.
Um negociava azeite. Outro detinha terras além da estrada que passava mais abaixo. Um terceiro começara com quase nada e agora dava trabalho a homens que, antes, nem sequer teriam reparado nele no mercado.
Falavam sobre preços, a próxima colheita e um homem que perdera mais do que podia pagar quando o governante fez uma pergunta que não parecia ter relação com nada daquilo.
— O que aconteceria — perguntou ele — se não existisse dinheiro?
Um dos homens riu.
— Dinheiro nenhum?
— Nenhuma moeda. Nada de comprar. Nada de vender.
O homem esperou que a brincadeira continuasse.
O governante disse: — Suponham que um homem tivesse pão, e seu vizinho não tivesse nenhum; então ele repartiria o que possuía. Um telhado precisaria de conserto, e aqueles que soubessem fazer o trabalho viriam. Um campo produziria mais que outro, e os grãos iriam para onde fossem necessários. Ninguém perguntaria o que receberia antes de decidir se outro homem deveria comer.
O riso desapareceu da mesa.
O proprietário de terras recostou-se.
— Isso duraria até a primeira colheita.
— Por que só até lá?
— Porque metade dos homens descobriria que a outra metade estava disposta a trabalhar por eles.
Alguns homens sorriram.
O comerciante assentiu: — Se o homem que se levanta antes do amanhecer recebe o mesmo que aquele que dorme até o calor chegar, quanto tempo passará até que os dois durmam?
— Talvez o primeiro trabalhe porque o campo precisa dele.
— Por uma manhã — disse o comerciante. — Talvez duas.
Outro homem balançou a cabeça.
— Você está imaginando os homens como eles não são. O desejo nem sempre é um mal. Um homem vê o vizinho consertar o telhado antes das chuvas e, por isso, trabalha para consertar o seu. Vê os filhos de outro homem comendo bem e aprende um ofício. Quer mais para sua família, e querer mais o faz se levantar.
O governante escutou.
O proprietário de terras apontou para ele.
— Você deveria saber disso melhor que qualquer um de nós. Não chegou a esta mesa porque alguém lhe deu o que possui.
O governante o fitou.
— Não?
— Você trabalhou. Economizou. Arriscou o que outros homens guardaram. Quando alguma coisa fracassou, começou de novo. É por isso que hoje os homens confiam em você.
O comerciante ergueu o copo.
— E porque você não gastou tudo no instante em que ganhou.
Isso arrancou algumas risadas.
Outro homem disse: — Não há crueldade alguma em dizer que um homem deve receber o fruto de seu trabalho.
— Não — respondeu o governante.
— E não há nada de errado em querer que os próprios filhos tenham mais do que seus pais tiveram.
— Não.
— Então, sobre o que estamos discutindo?
O governante percorreu a mesa com os olhos.
Não eram homens cruéis.
Pagavam aos trabalhadores. Cuidavam de suas famílias. Davam quando a necessidade surgia diante deles. Haviam se levantado enquanto outros dormiam e continuado a trabalhar quando havia escolhas mais fáceis.
Muito do que tinham dito era verdade.
Talvez por isso a tristeza tivesse chegado.
Um dos homens percebeu seu silêncio.
— O quê?
O governante baixou os olhos para o lugar onde estivera o pão.
Depois tornou a erguê-los.
— Digam-me uma coisa.
Eles esperaram.
— Se um mundo sem compras nem vendas fracassaria porque nenhum homem trabalharia a menos que pudesse ter mais que outro homem…
Ele parou.
Ninguém o interrompeu.
— Então, como vocês acham que é o céu?
